Amor ou outra matéria

De ti preciso de um olhar, desses perdidos, como a procurar alguma coisa por ali, por aqui, ou até no meu olhar, como a procurar a poesia que existe sempre escondida para lá do horizonte. Enches os olhos e continuas leve como se fosses o vento e procurasses uma direcção ou somente um sentido. Vais e vens sempre cheia, e enches o espaço e linhas, e, entre as palavras dizes tanto e tanto, com silêncio e sorrisos. Não falas nem escreves, existes. Verdade, tu também és! Escrevo-te como jovem apaixonado, perfumado mesmo longe da juventude, sim escrevo-te com a ponta dos dedos, estes que te tocam, como os olhos o nariz e a língua. Levo-te e trago-te em mim. Visto-te e dispo-te como tu me fazes. Todos são poucos esses dedos e vens, sendo lábios, língua molhada e olhos fechados. Náufragos nos braços um do outro, respiramos com uma só boca, e às escuras o mundo acaba ali no fundo da nossa pele. Não existe cama nem chão nem paredes. Nem quarto nem sala nem vida. Nada! Só dois corpos e duas bocas a procurar sabores, a descobrir formas. Passo todo nos teus lábios, sou gás raro sussurrado no meu ouvido, cresço, sou matéria, sou sexo pousado nos teus lábios, fluido, sou liquido na tua boca, saliva minha e tua qual receita secreta de um qualquer mago. Sou sólido pouco mais que um desejo. Não existo, sou língua, todo língua no teu sexo, todo lábios nas tuas coxas, puro ar na tua vida. Morro quando morres nas minhas mãos. Acordámos no cheiro a sexo, agarrados, dois corpos nus, uma só boca, um só sexo e as mãos que agarram mãos, agora já, de braços abertos e ofegantes esperam o fim, outro, outro ainda. Uma vontade de gritar e uma falta de ar e uma falta de chão. Só existem mãos agarradas à vida e a respiração cada vez mais difícil até o mundo acabar e morremos. Outra vez morremos até renascer o sexo neste romance onde morremos como os dias, morremos muitas vezes como o prazer. Mortos vemos as sombras destes nossos corpos desenhadas na cama. Sombra única ou cada uma no seu lado, sem sombras entre si, um braço que se estende, uma perna que se enlaça, um e outro corpo envolvem-se num querer. Querer tudo. Tudo! Mas de ti quero também o teu olhar perdido em mim, esse olhar que me enche(…)

Dobrou o papel pelos vincos sem entender aquelas palavras. Sem chegar ao fim desistiu, Seria um mal entendido qualquer, não conheceria aquele homem com quem partilhava a vida? Que lábios aqueles que diziam passear neste seu corpo e ela desconhecia. Esquecimento? Que gás era esse! Um mal entendido… outra matéria qualquer, mas tão longe disso de amor. Tão longe desse olhar inexistente. Com as mãos perdidas no cabelo procura e mata o silêncio com ditongos primários, recém nascida numa vida perdida, já dragão expele letras como soldados, balas proferidas por essa boca que nunca teve uns lábios um sexo um corpo. Nunca foi nem veio. Passou ao lado do amor e de outras matérias. Inexistiu e agora grita, mata o silêncio com uma vida morta nos seus sonhos. Perdida manda calar o sol, matar os pássaros como fossem memórias, esquece quereres, desiste do amor e de outras matérias.

(maio 2015 – publicado na 1ª antologia poética da editora Orquídea)

Amor Surreal

Queria estar morto sabendo que a eternidade dura três segundos, a olhar e ver que chegas dentro de um sorriso, com a minha língua ainda esquecida no teu pescoço, com um rasto dos meus beijos atrás de ti. Desconheço horas dentro desta escuridão, muito menos norte, nem limites! A respiração ofegante diz que vamos chegar quando o corpo diz que não querer parar. Corpos que procuram fundir-se, pudessem eles e seriam o resto de um qualquer vulcão, estátua eternamente fixa. Memórias sublinhadas pelo corpo, a pele na pele, como se fosses só mão a asfixiar este corpo, como se eu fosse todo mão a envolver o teu corpo, um polvo, um ar asfixiante, um calor do deserto, uma memória… o que fica dos carinhos da tua pele na minha, da minha na tua, um pequeno salto para a eternidade não mais do que esta cama, um mundo mínimo neste presente eterno, que acaba em três segundos.

Queria tanto saber-me morto nesses teus braços, onde vivo. Saber-te feliz depois de clareares por dentro, e falares do passado, dessa eternidade maior que míseros segundos. E sorris ao olhar as sombras, este mar, e sorris ao procurar nuvens objecto. Sorris ao olhar tantos dedos que já foram tão poucos. Estremeces ao questionar “para quê e agora?”, e arrepiada ao sentir o vento a passar viras-te rápido à procura dos lábios que te sopram. Sim, a eternidade já começou, bem mais longa que o prometido.

Queria estar morto sabendo que a eternidade dura três segundos. E viver cada segundo como não houvesse um outro, como houvesse sempre escuridão com a nossa cama lá dentro. Não, sem segundos, sem relógios, sem sombras, só vida em dois corpos, e os teus braços onde vivo, os meus que te esperam e te agarram como se a eternidade estivesse aqui e aqui acabasse.

Imagino o início do meu corpo onde me tocas. Ilusão.

E tu longe e os teus braços aqui. Chegas, por certo sem cabeça e eu vejo-te num sorriso, e tu longe com a minha língua ainda esquecida… e agora, queria tanto estar morto nesse meu colo se a eternidade não passar de três segundos…

Fecho as gavetas todas, todas! Não pretendo ser mais o teu sol, esse objecto intermitente, quero ser luz, estar presente e constante. Estás mais bonita hoje, ouço, como se não mexesse a boca, como dito por qualquer outro. Quantas bocas estão aqui? Fechadas as gavetas todas, ficamos os dois, ou somente eu e tu? Sim, os dois e a vontade de estar morto desconhecendo que essa eternidade terá acabado.

(abril 2015 – publicado na 1ª antologia poética da editora Orquídea)