Amor Surreal

Queria estar morto sabendo que a eternidade dura três segundos, a olhar e ver que chegas dentro de um sorriso, com a minha língua ainda esquecida no teu pescoço, com um rasto dos meus beijos atrás de ti. Desconheço horas dentro desta escuridão, muito menos norte, nem limites! A respiração ofegante diz que vamos chegar quando o corpo diz que não querer parar. Corpos que procuram fundir-se, pudessem eles e seriam o resto de um qualquer vulcão, estátua eternamente fixa. Memórias sublinhadas pelo corpo, a pele na pele, como se fosses só mão a asfixiar este corpo, como se eu fosse todo mão a envolver o teu corpo, um polvo, um ar asfixiante, um calor do deserto, uma memória… o que fica dos carinhos da tua pele na minha, da minha na tua, um pequeno salto para a eternidade não mais do que esta cama, um mundo mínimo neste presente eterno, que acaba em três segundos.

Queria tanto saber-me morto nesses teus braços, onde vivo. Saber-te feliz depois de clareares por dentro, e falares do passado, dessa eternidade maior que míseros segundos. E sorris ao olhar as sombras, este mar, e sorris ao procurar nuvens objecto. Sorris ao olhar tantos dedos que já foram tão poucos. Estremeces ao questionar “para quê e agora?”, e arrepiada ao sentir o vento a passar viras-te rápido à procura dos lábios que te sopram. Sim, a eternidade já começou, bem mais longa que o prometido.

Queria estar morto sabendo que a eternidade dura três segundos. E viver cada segundo como não houvesse um outro, como houvesse sempre escuridão com a nossa cama lá dentro. Não, sem segundos, sem relógios, sem sombras, só vida em dois corpos, e os teus braços onde vivo, os meus que te esperam e te agarram como se a eternidade estivesse aqui e aqui acabasse.

Imagino o início do meu corpo onde me tocas. Ilusão.

E tu longe e os teus braços aqui. Chegas, por certo sem cabeça e eu vejo-te num sorriso, e tu longe com a minha língua ainda esquecida… e agora, queria tanto estar morto nesse meu colo se a eternidade não passar de três segundos…

Fecho as gavetas todas, todas! Não pretendo ser mais o teu sol, esse objecto intermitente, quero ser luz, estar presente e constante. Estás mais bonita hoje, ouço, como se não mexesse a boca, como dito por qualquer outro. Quantas bocas estão aqui? Fechadas as gavetas todas, ficamos os dois, ou somente eu e tu? Sim, os dois e a vontade de estar morto desconhecendo que essa eternidade terá acabado.

(abril 2015 – publicado na 1ª antologia poética da editora Orquídea)

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